este perfume hoje
é um véu orvalhado de lágrimas
separando nossas mãos parcas
esse perfume hoje
é um oceano de ondas crispadas
com caninos de espuma
uivando ao céu fechado
esse perfume
que ontem era escada
hoje estagna
coagula em chaga
no meu peito
(e aqui sentado vendo a águia partir
como pandorga desatada
me pergunto se um dia vai voltar
e retirar com seu bico de luz
a pedra que engasga minha garganta)
domingo, 22 de fevereiro de 2009
flor do deserto
o modo como me falava
pensei que me abandonava
minha fome se retorceu
em torno do caduceu
agora a flor do deserto
parece terra arrasada
& a chuva que não vem são lágrimas
choradas às avessas pela terra
pensei que me abandonava
minha fome se retorceu
em torno do caduceu
agora a flor do deserto
parece terra arrasada
& a chuva que não vem são lágrimas
choradas às avessas pela terra
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
seara
saúdo o dia
o sangue no crivo
a pérola no mar
evito o conflito
a escuridão ascende
o corpo é fumaça
minha cama em chamas
estende suas velas
em uma revoada
de sorridentes
caravelas
arruinadas
eu sorrio
saúdo o dia
a água na água
o amor rente ao chão
o sangue no crivo
a pérola no mar
evito o conflito
a escuridão ascende
o corpo é fumaça
minha cama em chamas
estende suas velas
em uma revoada
de sorridentes
caravelas
arruinadas
eu sorrio
saúdo o dia
a água na água
o amor rente ao chão
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Tratamentos
"Tomar salsaparrilha para o sangue"
Jorge de Lima
A seiva do silêncio amplia o olhar
Quando não há lugar para repousar
E as nuvens carregam lágrimas químicas
De decaídos homens insatisfeitos
Não quero te exigir nada
Mas é hora de limpar teu sangue
(Teu sangue único
É teu sangue metafísico)
Antes que se acumulem os Rastejantes
Para sugar o que é só teu
Guarnece tuas orelhas com arcoíris
Inscreve nomes sagrados em teu peito
O tempo não é linha o tempo é círculo
Mas a crosta que palavras ocas lhe impuseram
Acabam por sufocar
Tomar o beijo das ervas para os sonhos
Tomar a ti mesmo em teus braços
Portar um sorriso no estandarte
Escancarar imensas asas absurdas
No espaço mínimo
Jorge de Lima
A seiva do silêncio amplia o olhar
Quando não há lugar para repousar
E as nuvens carregam lágrimas químicas
De decaídos homens insatisfeitos
Não quero te exigir nada
Mas é hora de limpar teu sangue
(Teu sangue único
É teu sangue metafísico)
Antes que se acumulem os Rastejantes
Para sugar o que é só teu
Guarnece tuas orelhas com arcoíris
Inscreve nomes sagrados em teu peito
O tempo não é linha o tempo é círculo
Mas a crosta que palavras ocas lhe impuseram
Acabam por sufocar
Tomar o beijo das ervas para os sonhos
Tomar a ti mesmo em teus braços
Portar um sorriso no estandarte
Escancarar imensas asas absurdas
No espaço mínimo
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
posse
a mais árvore
a mais relâmpago
a mais horizonte
a mais sagrada
a mais súbita
a mais cristal
a mais elemental
a mais mar
a mais sol
a mais fruto
a mais saudade
a mais sorriso
a mais jardim
aquela que caminha rente à espuma
e que os peixes vem cortejar
para entrar nesta dança
deves abandonar teu corpo antigo
ainda é tempo meu amigo
de compreender o amor verdadeiro
não é o lamento que abre portas
mas a coragem de ser o que se é
não é o vinho que abre o dia
mas a esfera perfeita das uvas no pé
sem subterfúgios nem máscaras
é bom saber que existe essa beleza
que não me pertence mas me ilumina
a posse se esfarela na pele mascava
da menina
a mais natureza
coroada de arcoíris
me ensinou (e após mil anos compreendi)
a calma que as águas necessitam
para ser apenas
plenas
para a fernanda, a mais linda, flor raríssima no caminho do ogro.
a mais relâmpago
a mais horizonte
a mais sagrada
a mais súbita
a mais cristal
a mais elemental
a mais mar
a mais sol
a mais fruto
a mais saudade
a mais sorriso
a mais jardim
aquela que caminha rente à espuma
e que os peixes vem cortejar
para entrar nesta dança
deves abandonar teu corpo antigo
ainda é tempo meu amigo
de compreender o amor verdadeiro
não é o lamento que abre portas
mas a coragem de ser o que se é
não é o vinho que abre o dia
mas a esfera perfeita das uvas no pé
sem subterfúgios nem máscaras
é bom saber que existe essa beleza
que não me pertence mas me ilumina
a posse se esfarela na pele mascava
da menina
a mais natureza
coroada de arcoíris
me ensinou (e após mil anos compreendi)
a calma que as águas necessitam
para ser apenas
plenas
para a fernanda, a mais linda, flor raríssima no caminho do ogro.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
peixe-cachorro-escorpião

(subverta mente minha
comerciais de tv
onde teu ser não se vê.)
pois então
na emulação da Redenção
um estranho minizoo
com aquários
de insetos gigantescos
e o peixe-escorpião
(fui correndo chamar meu irmão -
mas o peixe não morreu
como o texugo do sonho de infância.)
o tamanho do gafanhoto
a deselegância da barata
é confortador
ver insetos gigantes sem asas
mas então
num vai e vem e gente de gente querida
buscando isso aqui aquilo acolá
pra matar a sede
virou cachorro
o peixe-escorpião
tímido e brincalhão
entre os pilares do parque
ele vem correndo
sorriso de cachorro na cara
abanando a cauda rugosa
colada ao corpo vermelho
e foi então
o peixe-cachorro-escorpião
se mostrou Maracatu
sua cabeça o estandarte
sua cauda distribuindo círculos
(demorei um pouco a aprender.
as rodas você dá pro povo.
a cabeça do povo
é o centro do sol.
esse é nosso ritual.)
percorrendo corredores infindos
então ai então
(e teve gente querida
e vai-e-vém de novelos.
teve vontade de revê-los,
vocês todos
meus amigos
com poeira de estrela nos cabelos.)
.
pra Dadá e pra Pamela.
sonho triste
mais um sonho triste
quase repetido
é que vou lançando ao mar
os pedaços da memória
pra ver se no dia carrego um sorriso
mas é tão triste e amargo
não ter sonhos bons com a amiga
num ela se vai
noutro ela não vem
mais outro e me ignora
no quarto me põe pra fora
havia uma ferida no peito
e uma ferida no umbigo
cobri tudo com panos quentes
- será que o sonho
se tornou inimigo
ou só me foi proibido
sonhar contigo?
quase repetido
é que vou lançando ao mar
os pedaços da memória
pra ver se no dia carrego um sorriso
mas é tão triste e amargo
não ter sonhos bons com a amiga
num ela se vai
noutro ela não vem
mais outro e me ignora
no quarto me põe pra fora
havia uma ferida no peito
e uma ferida no umbigo
cobri tudo com panos quentes
- será que o sonho
se tornou inimigo
ou só me foi proibido
sonhar contigo?
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